Eu era eu, e de repente, não pude mais ser.
Busquei-me em locais e pessoas que moldaram-me e me tornei um deles, mas eles não me aceitavam. Então descobri um novo eu, mas era eu mesmo ou era o que eu achava que queria ser? O tempo me disse que esse ainda não era eu. E agora sou? Sinto-me mais viva, como se florescesse, como se a semente plantada finalmente criasse raízes. Mas sou sempre o agora, meu passado se dissipa, como uma névoa que nos faz esquecer de tudo, igual um livro que li e recordo um pouco.
Porém há ventania e desconforto em crescer. Eu não sabia que seria tão árduo, não imaginava que teria tantos contratempos em mim, em minha própria mente. Todo dia uma batalha invisível aos olhos da multidão, mas eu estou no palco e o holofote me cega, eu preciso me apresentar, preciso sorrir, acenar e soltar minha voz, cantar um cântico, algo sonoro, um murmúrio. Já não posso me permitir ficar calada, não mais! Então bebo e sinto o veneno me corroer, mas não é ruim, só é demais, e isso me deixa um pouco triste, mas há tanta beleza a minha volta, eu tento diariamente enxergar pequenas coisas que me fazem sentir.
Dizem coisas boas de mim e eu me pergunto se é assim que sou enxergada, como um quadro belo pintado para proteção, mas mesmo assim duvido de mim mesma e ao mesmo tempo tenho tanta certeza. Uma fé cega que me guia desde sempre. É assim com todo mundo? Queria ser outro por um dia, entender algo além dos meus sentimentos, dos meus pensamentos.
Nos meus sonhos esqueço que existo e existo em outros ares, outros mundos, outros seres. Mas acordo e preciso vivenciar essa realidade, esse eu. Gosto do vento no cabelo, dos pássaros cantando, da minha família e amigos, eles são um grande pilar do meu alicerce. Gosto do cheiro de pão assando na sanduicheira que me lembra minha infância, no batente da cozinha, ouvindo minha avó cantar.
Saudades da infância, mas hoje eu te honro: mini eu. Faremos essa vida valer a pena, por você e por todas as vezes que não te deixaram cantar, quando retiraram o microfone e desligaram as luzes do palco. Eu acendi uma lanterna para você. Eu te aplaudi e te ouvi. Sempre estarei aqui.