É como se eu estivesse morta e fosse um espírito observando meu próprio corpo exposto, mas ele está sereno, não sofreu, ou pelo menos finge que não sofreu, pois atua.
Os dias parecem fragmentos de um grande acontecimento que nunca chega, o backstage de um show, um banho pré-festa, um esquenta, mas já está quente demais e eu não estou bêbada o suficiente, ainda bem, pois estou reduzindo os danos.
Me julgo quando descumpro promessas feitas para mim mesmo, mas esqueço de me parabenizar por todas as conquistas que alcanço. Por que foco no que me machuca ao invés de focar no que me faz bem? A melancolia me abraça sempre, mas eu já fiz as pazes com ela, não somos inimigas. Com a dor é diferente, ela espreita meus sonhos, me faz acreditar que eu não consigo, mas eu consigo sim, eu sempre consegui. Questiono-me se um dia serei tudo o que quero ser, mas quando faço isso, já sinto que sou, então sou?
Nada importa. As circunstâncias não importam. Apenas o estado de ser importa. Então sou.
Na verdade, queria ser dele, não como propriedade, mas como afeto, mas ele me distrai.
Então sou minha, mas não me importaria de compartilhar-me com ele.
O tempo guiará.
Estou amparada por minhas amizades, nos divertimos, rimos e refletimos sobre a existência, pois não entendemos, creio que ninguém entende.
E eu não entendo porque no fundo sou tão assim.
É como se no final do arco-íris, o pote de ouro que deveria estar lá, já tivesse sido levado. Mas sempre haverá outro arco-íris. Porém lá no fundo, no âmago, no cerne, na essência, existe um fluxo impossível de conter: uma melancolia nata.
E eu percebo que talvez o problema seja eu, ou não há problema algum e eu só quero me culpar por algo que foge do meu controle.
Assim me invólucro cada vez mais em mim, para não ser mais ferida no processo de transmutação, embora eu quisesse ser cuidada, deixo-me quieta, resguardando para um dia abrir as asas.
Afinal, todas feridas cicatrizam e eu poderei, porque eu posso, alçar meu voo.
E voar.
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